Wednesday, February 23, 2011

Humor

humor

(Oswald de Andrade, "Amor")


Nessa poesia de uma palavra, há mais do que os olhos podem ver.  A etimologia da palavra "humor" diz que, na fisiologia antiga e medieval, "humor" queria dizer qualquer dos quatro fluidos corporais: sangue, fleuma, cólera, e melancolia ou bile negra. Acreditava-se que as proporções relativas determinavam o estado de espírito. Pessoas de "mau humor," então, tinham uma quantidade demasiada de qualquer um dos quatro fluidos.  Cada fluido contribue sentimentos diferentes para o ser humano, então pode ser que Andrade quer dizer que a palavra "amor," assim como "humor," leva muito mais peso do que parece.  Não existe só um tipo de amor—o amor tem várias faces.

Tuesday, February 22, 2011

Clowns de Shakespeare

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

—Não quero mais saber do lirismo que não é libertação

(Manuel Bandeira, "Poética")


Bandeira deseja o lirismo espontâneo e livre que representa melhor o que realmente acontece na psique humana, e não aquela versificação rígida que é seguida pelos poetas antigos.  O que ele usa para demonstrar isso é o falar imprevisível dos loucos e dos bêbados.  Parece que tais pessoas não têm sentido no que falam, mas o poema argumenta que é até mais difícil e pungente do que o falar das pessoas "normais."  Shakespeare usava clowns muitas vezes para dizer as coisas mais sábias, mas por eles serem "clowns" ninguém levou o que diziam ao sério.  O lirismo dos loucos, bêbados, e clowns, Bandeira diz, é o lirismo que não somente chega mais próxima da verdade, mas chega mais próxima da libertação. "...Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Joao 8:32).

O Amor Defunto

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim:—"Por que não vieram juntos?"

(Alphonsus de Guimaraens, "Hão de chorar por ela os cinamomos")


Essa poesia de Guimaraens revela um aspecto diferente da morte do que geralmente acostumamos pensar.  Enquanto geralmente lamentamos a perda de um ente querido e desejamos que ele esteja junto conosco de novo, o narrador desse poema deseja se juntar à amada dele nas estrelas.  Ele não é a única pessoa que sente falta dela—ele nota que a lua e as árvores tambem sentem falta da sua presença.  Porém, o narrador se coloca acima das coisas inanimadas, porque somente ele tinha por ela "sonhos de amor."  Com a morte da amada, os sonhos são defuntos, e até os arcanjos do céu ficaram surpresos que a querida chegou sem ele.

Friday, February 4, 2011

O Que A Gente Acha Lindo

"Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nos gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider" (Antonio Prata, "Bar ruim é lindo, bicho," As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, 338).

Tem uma grande tendência em nossa sociedade moderna a gostar das coisas "legais" que são menos gostadas.  De fato, uma coisa considerada linda por muitas pessoas torna-se feio para outros.  Acho que esse modo de pensar se cria da ideia que algumas pessoas são melhores que as outras pessoas.  É verdade que muitas coisas de que o mundo gosta realmente são horríveis.  Existe mau gosto. Mas também existe uma diferença entre o amor do belo e o desejo de ter um gosto mais "refinado" que o resto da humanidade. Se uma coisa deixa de ser linda depois de ficar popular, foi linda, em primeiro lugar?

O Melhor Drama

"O melhor drama está no espectador e não no palco" (Machado de Assis, "A chinela turca").

Ao considerar drama, acostumamos pensar que está no "palco" onde fica o significado.  Por causa da ação no palco, ou a peça é bom, ou a peça é ruim.  Por causa do que acontece na tela, ou o filme é bom ou o filme é ruim.  Por causa do que acontece com os personagens, ou o livro é bom ou o livro é ruim.  Mas o que realmente faz um livro "bom" ou "ruim?"  Um livro "maravilhoso" para uma pessoa pode ser considerado como "lixo" para outra.  Se não existisse ninguém exceto o escritor e seu livro, o livro teria o mesmo significado?  Por que lemos?  Será que é porque sabemos que o livro é bom, e tem que ser lido por nós assim como por aqueles que já o leram?  Ou é porque queremos que a mesma coisa aconteça em nos que já aconteceu nos outros?  Ou é porque queremos uma experiencia totalmente diferente do que já foi experimentada?

Tuesday, February 1, 2011

Só os Iniciados Compreenderiam

"Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vicio e esse refinamento de vida" (Clarice Lispector, "A Imitação da Rosa," Laços de Família, 51).

Todo ser humano sabe que ser humano e nada fácil. Pode ser que a parte mais universal da humanidade é lidar com as dificuldades, o cansaco, a dor, e a inevitabilidade da morte. A ideia que Clarice Lispector levanta--que essa parte da experiencia humana é bela e até desejada--mostra um lado totalmente diferente do que o jeito que as pessoas acostumam pensar. Ao dizer que uma pessoa de Marte não entenderia "o que havia de bom em ser gente," quase todos concordariam que há algo especial em ser humano. Ao dizer que havia algo de bom em "sentir-se cansada," começariam a duvidar, mas a maioria dos leitores continuariam a concordar com a afirmação, concluindo que, sim, talvez haja uma certa beleza em sentir cansaço. Mas em "diariamente falir"--aí as pessoas realmente parariam.  O que tem de bom em falir?  E todos os dias?  Isso é ser gente?  Realmente--Lispector levanta uma questão que "só os iniciados" num mundo cheio de cansaço e fracassos diários poderiam compreender.